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N O T I C I A - U N I V E R S I T A R I A
70 anos na perspectiva de Antonio Candido, Alfredo Bosi, Marilena Chauí e Octavio Ianni
Antonio Candido, Alfredo Bosi, Marilena Chauí e Octavio Ianni juntos, numa mesma mesa, discutindo a importância da FFLCH na história da USP e do Brasil. Esse evento ocorreu na noite do dia 17 de março, na Casa de Cultura Japonesa, como parte das comemorações dos 70 anos da Faculdade.
Alfredo Bosi: tecnocratas contra utópicos
70 anos é uma idade mais do que suficiente para uma senhora criar juízo”, afirmou o professor Bosi, o primeiro a falar. Fazendo um levantamento histórico, lembrou que nos primeiros anos da Faculdade havia um espírito apolítico, de “uma alienação difusa” e de “desdém dos mestres estrangeiros pela política brasileira”. Foi a partir da década de 60, com a Campanha pela Escola Pública, liderada por Florestan Fernandes, que houve um engajamento acelerado que não mais cessou, explica o professor, identificando três gerações políticas: a de 45-46, a de 64, “que pertenço”, e a de 68. Por fim, Alfredo Bosi diagnosticou a existência hoje de duas correntes: a primeira, que visa aprofundar a relação saber e democracia, justiça e liberdade, conhecimento e ética; e a outra, que aceita valores difusos como eficiência e competitividade, considerando esta última como “a palavra mais feia da língua portuguesa”, tratando a cultura como mercadoria. Os que se alinham à primeira tendência, vêem aqueles que compartilham da segunda como tecnocratas; e estes, por sua vez, rotulam os primeiros de utópicos.
Octavio Ianni: local da “aventura do espírito”
Dando sequência, foi a vez do professor Emérito Octavio Ianni, de sociologia, falar. Ressaltando a importância da Faculdade no cenário paulista e nacional, o professor acredita que foi através dela que se conseguiu criar uma interpretação da realidade como também uma forma de atuação nela, além de irradiar conhecimento e cultura. Sobre o Golpe Militar de 64, o professor Ianni disse que até hoje não se conseguiu mapear completamente os seus estragos sociais, culturais e econômicos. Foi um “bloqueio drástico das potencialidades brasileiras e das universidades como um todo, mas principalmente da USP”. Como dilema da universidade hoje, o professor vê justamente o novo cenário mundial. “Adeus nacionalismos, adeus projetos nacionais. Não há mais espaço para isso, mas sim para novos projetos que trabalhem no novo cenário mundial que é a globalização”. A atuação da universidade, então, há de ser na solução dos novos desafios científicos como também na formulação de novos conceitos que possam dar conta desse cenário. E, por fim, Octavio Ianni vê a necessidade de resgatar e devolver o potencial da universidade “tendo em conta esse novo cenário”.
Marilena Chauí: a “sociedade do conhecimento”
A professora de Filosofia Marilena Chauí criticou o atual fascínio pela “sociedade do conhecimento”, na qual o saber é reduzido a uma mera condição de mercadoria. Nesse processo, as universidades acabam se transformando para melhor atender a essa “nova função” , transformando-se em “universidades operacionais”. Nelas, a eficiência e a agilidade são as palavras de ordem, como também a produtividade – medida através do números de publicações (de forma quantitativa, não qualitativa); além da orientação de suas pesquisas para as demandas do mercado, não da sociedade. A professora Chauí, no que toca à reforma universitária em pauta, disse ser necessário “propor uma universidade republicana, e não mercantil; democrática, e não formadora de elites”. Envolvida com o grupo de professores da USP que está estudando a questão da reforma, a professora entregou ao diretor da FFLCH, professor Sedi Hirano, um disquete com a última versão do projeto que coordena como também a proposta elaborada pelo Banco Mundial na década de 80 (e até então seguida pelos governos da América Latina), da qual discorda completamente.
Antonio Candido: um projeto positivo das oligarquias
O professor Emérito Antonio Candido centrou sua exposição no passado que presenciou da Faculdade. Relembrou o ciúmes despertado pela então FFCL nas escolas tradicionais, chegando a projetos de fechá-la. O mais famoso caso foi o que envolveu o então governador Adhemar de Barros e o professor Alfredo Ellis Jr. Este último, indicado pelo primeiro para ser diretor da FFCL, tinha como incumbência fechar a Faculdade, mostrando a sua inviabilidade. Mas, o que aconteceu é que o professor se apaixonou pela escola e tornou-se um dos seus principais defensores, conta o professor Antonio Candido. Antonio Candido contou ainda que nos dois primeiros anos (1934/1935) havia uma “moda” de freqüentar as aulas da faculdade, entre chás e jantares refinados da elite paulistana – porque não havia alunos. Depois, para corrigir esse problema, o professor Fernando de Azevedo resolveu convocar os melhores professores primários para cursar a Faculdade, como um prêmio que, ao mesmo tempo, revertia na qualificação do ensino fundamental. “A politização não vinha dos seus alunos ou dos seus professores, vinha simplesmente da existência de suas matérias. Pela simples existência, elas radicalizavam”, comentou o professor Candido sobre o ambiente da Faculdade, mas ressaltou a importância de Paulo Emílio Salles Gomes na articulação política dos estudantes. A turma de 1944 foi a primeira a se envolver com questões políticas. “FFCL assegurou o advento das mulheres no ensino superior”, acredita o professor, “já que muitas famílias tinham a impressão de que a Faculdade de Filosofia era uma espécie de Escola Normal”, ironiza. Encerrando, o professor Antonio Candido disse que “a Faculdade se distanciou muito daquilo que as oligarquias pensaram para ela”, daí o que caracterizou como “projeto positivo”. Em 1964, ainda conta, todas as congregações da USP apoiaram o golpe, menos uma: a da FFCL. “E não porque era de esquerda, explica, mas porque era contra a opressão”.